Avishai Margalit, “Human Dignity between Kitsch and Deification”

“Kitsch” is a term of german origins and refers to an exaggeration of sentimentality. Kitsch, for Avishai Margalit, not only prejudicial to art, it is, too, to morality. There is kitsch art – materialised in vulgar expressions, excessively emotive, of “bad taste” – and there is kitsch morality. Carl Jung wrote that “sentimentality is the superstructure erected upon brutality”. Mary Migdley, that sentimentality comprises “misrepresentation of the world in order to indulge our feelings”.

Avishai Margalit sees two genealogical paths of human dignity. One has the foundation on the deification of the human being. The other is based on moral kitsch. This notion of kitsch infused human dignity is underpinned by the capacity, shared by all human beings, of suffering. Despite its merits, this vision carries a great danger: to see every human being as a victim and, in order to dignify the victim, to see the victim necessarily as pure and innocent. This sentimental distortion is extremely detrimental to the respect for humans, which is needed the most precisely in cases in which the human being that requires respect is not innocent.

In a society in which the ethics of human dignity is imbued with kitsch, sentimental education, so as to extend moral respect to every human being, transforms everyone, criminals and sufferers, into vicitms. Kitsch sentimentality establishes a victimization culture. For Margalit, however, the very purpose of respecting the human being is to exclude the need of verifying a noble characteristic in the individual. One should be respected simply because of his biological association in the human species. A man should not have to show pure conduct and thoughts in order to be spared of humiliation (and by humiliation, Margalit means human degradation, rather than a strict social sense of the word).

Even a despicable person should have her human dignity preserved, for human dignity does not hinge on innocence. Avishai Margalit stresses that treating human beings with moral respect is an obligation not necessarily corresponded by a right. A moral obligation determines that one should not violate the human dignity of any human person, even if the human person at hand is a disgraceful individual whose acts justify the loss of his rights.

Pedro Rogério Borges de Carvalho

Avishai Margalit’s article:  Hedgehog Review;Fall2007, Vol. 9 Issue 3, p7. November, 2007.

Author page: https://www.ias.edu/scholars/avishai-margalit


 

Resumo do artigo de Avishai Margalit, “Dignidade entre Kitsch e Deificação”.
Por Pedro Rogério Borges de Carvalho

 

Kitsch é um termo de origem alemã e se refere a um exagero de sentimentalismo. Não apenas prejudicial à arte, também o é à moralidade, segundo Margalit. Existe arte kitsch – materializada em expressões vulgares e excessivamente emotivas, de “mau gosto”, “brega” – e existe moralidade kitsch. Carl Jung escreveu que o sentimentalismo é a superestrutura erigida sobre a base da brutalidade. Mary Midgley, que sentimentalismo envolve distorção do mundo a fim de satisfazer nossas emoções.

Avishai Margalit enxerga dois caminhos genealógicos da dignidade humana. Um tem fundamento a deificação do humano. O outro, o kitsch. Esta orientação de dignidade humana imbuída de kitsch que se baseia na capacidade comum a todos os seres humanos de sofrer tem grande mérito,[1] porém também carrega um grande perigo: ver todo ser humano como vítima e, para dignificar a vítima, sempre observá-la como pura e inocente. A distorção sentimental de apresentação da vítima como necessariamente inocente e pura é prejudicial à utilidade do respeito aos humanos, que se faz mais preciso justamente em casos nos quais os seres humanos que requerem reconhecimento são nada ou apenas parcialmente inocentes. Um homem não deve ter que demonstrar pureza de conduta e pensamentos a fim de ser poupado de tratamentos degradantes e cruéis. Demasiada importância é atribuída à simpatia pelas vítimas a ser conquistada através de sua percepção como inocentes.

Em uma sociedade cuja ética de dignidade humana é essencialmente carregada de kitsch, a resposta encontrada pela “educação sentimental” para estender respeito moral a todo ser humano é transformar todos, criminosos e padecedores, em vítimas. Sentimentalismo kitsch cria uma cultura de vitimização. Mas para Margalit, todo o propósito de respeitar o ser humano é justamente não depender da verificação de nenhuma característica nobre no mesmo. Mesmo pessoas desprezíveis devem ter sua dignidade humana preservada. Diferentemente do sentimentalismo kitsch, dignidade humana não diz respeito à inocência.

Kitsch é emocionalmente preguiçoso. Respeitar pessoas abomináveis apenas devido ao fato de que são humanos pode ser extremamente difícil. Stephen Darwall concebe duas classes de respeito: respeito por apreciação (appraisal respect) e respeito por reconhecimento (recognition respect). A dignidade humana requer o último, que obriga todos a se abster de certos comportamentos devido simplesmente ao fato de que o outro é humano, sem a necessidade deste possuir certas conquistas e méritos. O respeito por reconhecimento pode ser especialmente complicado de se alcançar porque se faz necessário admitir alguém por que não se guarda qualquer sentimento de reconhecimento, ou mesmo que se despreza – alguém em relação a qual não se tem nenhum respeito por apreciação.

Qualquer que seja a qualidade virtuosa que justifique o respeito ao ser humano em determinada doutrina, é evidente que jamais todos os seres humanos a possuem. Qualquer característica além da simples condição de ser humano afunila a base de merecedores de respeito moral. Aqueles que não se encaixam nos requerimentos do critério qualitativo idealmente humano não são deificados, mas considerados maculados, impuros, corrompidos.

Para Immanuel Kant, somente a lei moral merece respeito primariamente. Humanos só merecem respeito derivado, pois têm glória refletida da glória da lei moral. Em outra leitura, no entanto, poder-se-ia dizer que uma razão para se diretamente respeitar os ser humano é a sua condição de criador em potencial da lei moral universal, potencial que todo ser humano racional e razoável possui. O que devemos respeitar, segundo a ética de Kant, é a humanidade em cada ser humano, qual seja a capacidade de ser, se não racional, ao menos razoável – a capacidade necessária para legiferar a lei moral. A questão que se põe é se não há dever moral de respeitar aqueles que não têm o poder de racionalizar, como os deficientes mentais ou mesmo os completamente ignorantes, irrazoáveis no sentido mais pleno. Além disso, respeitar mero potencial é absurdo, pois o mesmo pode facilmente ser empregado em objetivos hediondos. Seres humanos, para Kant, são os únicos capazes de determinar fins, logo se tornam fins em si mesmos – o que lhe garante respeito, juntamente com sua capacidade racional. Mas e se tais fins forem deploráveis, como o de genocidas?

Para Margalit, tratar seres humanos om respeito moral é uma obrigação moral não necessariamente correlacionada a um direito. Há a obrigação de jamais violar a dignidade humana de ninguém, mesmo aqueles indivíduos desprezíveis cujos atos justificam a perda de seus direitos. [2]

Em face ao contraste entre kitsch e deificação na história da dignidade humana e direitos humanos, Margalit admite que, apesar de odiar o Kitsch, o preferiria à deificação na construção de moralidade. “Melhor uma figura humana de sofredor do que de criador.”

O traço humano que justifica respeito moral é a característica de pertencer à espécie humana. É isso que nos livra da cruz de ver humanos como vítimas e da espada de vê-los como semideuses. A pergunta é se mera característica biológica poderia ensejar respeito aos humanos e o que se deve a cada um a fim de manter relações harmônicas. “Ser humano” é uma noção organizacional de moralidade. Respeito pelos humanos, além de uma noção organizacional, é também uma noção interna da moralidade. Não se pode, no entanto, afirmar categoricamente o que a noção de respeito pelos humanos compreende, mas conforme defende a autora, nós entendemos o sentido interno de respeito pelos humanos basicamente a contrario sensu, diagnosticando casos em que não se trata seres humanos da maneira como se deveria. Esse sentido negativo, ou, poderíamos dizer, o contrário de dignidade humana, é a humilhação. Não no sentido social da palavra, mas com o significado de degradação humana. Porque nós percebemos humilhação melhor do que entendemos a ideia positiva de dignidade humana, deveríamos adotar políticas negativas, prevenindo humilhação ao invés de estabelecendo políticas de promoção da dignidade humana.

 

[1] Pontes de Miranda, grande doutrinador do Direito Civil brasileiro, utiliza o sofrimento como critério de verificação de violação à dignidade humana.

[2] Visão semelhante à minha, sobre a qual escrevi meses antes de ler este artigo, explorando a doutrina de dignitas hominis de Tomás de Aquino, o qual certamente inspirou Kant em suas duras penas àqueles humanos que por seus atos abomináveis perderam direito de terem suas vidas respeitadas. Além disso, Tomás de Aquino aparentemente vinculou a dignidade do homem à sua condição de fim em si mesmo, nunca um meio, séculos antes de Kant, apesar deste ter ficado famoso pela doutrina.

 

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