Didier Fassin, “Moral Economies Revisited”

The first notorious concept of moral economy expressed the subjective traits of the poor workers of the field. This set of beliefs, traditions, customs and values constituted their sense of equity and justice, which, in turn, guided the peasants (or proletarians) in their assesment of reasonability of the material conditions posed by economic order and the owner (or capitalist). Through their sense of justice, the poor could perceive an implicit pact with the rich, thus being able to determine whether the rights and obligations of the parties were being respected. If the exploration imposed by the owner was too demanding and blatantly burdersome according to those communitarian tacit norms and values, this implicit covenant would be broken and occasionally there would be rebellions and mob movements.

This is how J. C. Scott and Edward P. Thompson tackled the notion (that the last of the two originally set in stone) to explain the food riots in the XVIII century England. He noted that, even if economic conditions are necessary for a protest to happen, they do not suffice. This objective dimension must be followed by a subjective dimension: a popular belief that rights were violated. The moral economy comprehends the conjuction of these two dimensions.

This concept of moral economy has a special importance, for it recognizes the poor have values, social norms and reason of their own. More: they have a sense of justice, which emerges as the implicit agreement of the scope of tolerable exploitation is broken. Could it be that there emerges a sentiment of dignity in a similar way?

This view of moral economy, though, is not the only one there is. Other authors follow completely different directives, leaning towards a general moral economy theory. This type of moral economy has very much to do with genealogy: it is a path to understand the concepts –  historically created, molded and destroyed, influenced by the culture not by individual characteristics or personal beliefs, therefore, susceptible to mutation and violation.

Pedro Borges de Carvalho

 

Didier Fassin’s article: http://www.cairn-int.info/article-E_ANNA_646_1237–moral-economies-revisited.htm

Author page: https://www.sss.ias.edu/faculty/fassin



 

Didier Fassin: As economias morais revisitadas.

Resumo por Alice Mueller e Pedro Borges de Carvalho.

 

Todo conceito tem uma história. Além disso, tem um processo de formação que envolve seu relacionamento com outros conceitos situados no mesmo plano, no qual conceitos se conectam e pertencem à mesma filosofia, ainda que não compartilhem da mesma história.

A expressão “economia moral” foi originalmente utilizada por Edward P. Thompson para se referir à gênese das revoltas dos famintos na Inglaterra do século XVIII. Desde seu artigo sobre a economia moral dos pobres, observa-se os movimentos populares desses segmentos sociais sob perspectivas não puramente objetivas, oferecendo um contraponto a economistas liberais – e outros filósofos morais de maneira geral – como o próprio Adam Smith. Thompson assume que os pobres têm uma lógica e características que os guiam em suas asserções de valor e, baseado neste, suas ações.

O termo economia moral tem sucesso crescente na academia e seus usos sugerem a ocorrência do fenômeno da “construção social”, descrito por Ian Hacking, no qual a expressão é aplicada a um conjunto cada vez maior de contextos de modo cada vez mais óbvio ou cada vez mais incomum. Esta mesma situação é observada em relação ao conceito de dignidade humana, um termo sobre o qual inicialmente se produziram discussões intensas e incisivas, mas que se tornam improdutivas conforme a expressão ganha tom de lugar comum[1].

 

Revoltas: a economia moral do protesto

Thompson pretende transcender a objetivação da classe trabalhadora em direção à sua subjetivação. Para entender a realidade da exploração, é necessário levar em conta as experiências de vida dos pobres, não somente suas condições materiais, por que são estas experiências que possibilitam compreender as transformações das relações de produção a partir da perspectiva dos agentes. Essa análise é imprescindível para a análise do surgimento de consciência de classe. Mas Thompson a fez para interpretar insurreições de camponeses famintos.

Criticando a interpretação das revoltas como respostas quase que automáticas das elevações nos preços, ele argumenta que não havia determinismo econômico ou primazia das necessidades fisiológicas para a decisão de protestar. O nexo entre necessidades materiais e eventos sociais não é causal. Não direta e simplesmente.

 

Ainda que condições econômicas sejam necessárias para o desenrolar de um protesto, não podem ser consideradas suficientes. Se camponeses se revoltam contra proprietário, é em parte porque os direitos e obrigações implícitos não foram cumpridos. Portanto, o entendimento da reação popular não envolve apenas uma economia política na qual o mercado impõe suas duras leis, mas também uma economia moral.

A economia moral compreende dois níveis de análise. Corresponde a um sistema de trocas de bens característico de sociedades pré-mercado e a um sistema de normas e obrigações.

Pode-se dizer que a Revolução Industrial marcou a transição da economia moral para a economia política, uma economia desincorporada do seio das atividades sociais através das leis do mercado. Sem estes critérios para atividade econômica, a ordem econômica era assegurada por dois princípios comportamentais: reciprocidade e redistribuição. A economia é uma expressão da atividade da sociedade, qual seja o comprometimento mútuo dos membros através da troca de bens e serviços. A revolução do século XIX não remete à anciã e estabelecida existência de mercados, mas ao estrangulamento dos mercados nas sociedades humanas[2]. Portanto há dois modelos econômicos radicalmente diferentes: o tradicional e o liberal, que sucede o primeiro.

A economia moral também integra um conjunto de normas que não são simples regras econômicas, tais como justiça, respeito e dignidade. A economia moral é, pois, baseada em critérios de legitimação segundo costumes ou direitos tradicionais. O senso comum de atitude correta une os camponeses em suas ações, ao ponto de se rebelarem.

Em suma, a economia moral de Thompson integra duas dimensões: uma econômica e a outra moral. As duas são inseparáveis, uma vez que o confrontamento só ocorre entre mercado e sociedade a partir do momento em que uma das partes não respeita o contrato moral que as liga e dispõe de seus direitos e obrigações.

Thompson não inclui valores em sua tese, restringindo economia moral a hábitos, costumes, não incluindo a moralidade. J.C. Scott o faz. Ele diz que a economia moral corresponde a um sistema de valores que baseia a expressão de emoções. Visa entender a visão camponesa de equidade social, a “ética de subsistência” do campesinato.

 

 

O objetivo de Scott não é entender a causa de insurreições, mas as condições sob as quais elas se tornam possíveis. Camponeses, frente a situações precárias e de escassez de alimentos, diferentemente do que pensaria um economista liberal, não tendem a maximizar seus ganhos, mas a minimizar suas perdas, pois o fantasma da fome os assusta. O desejo de segurança é o fundamento absoluto dos chamados direitos morais, inclusive do direito à subsistência. O ressentimento entre os trabalhadores do campo surge não porque necessidades não foram sanadas, mas porque direitos foram violados. A economia moral, portanto, ajuda a compreender como sistemas exploratórios podem subsistir mesmo quando princípios de justiça locais prevalecem. O sentimento de injustiça[3] emerge como resultado da ruptura do acordo implícito sobre o escopo da exploração tolerável.

Enquanto que Thompson trata de rebeliões, Scott escreve sobre as formas cotidianas de resistência do campesinato. Scott se diferencia de Thompson, além disso, ao introduzir valores à economia moral, que ganham, em sua obra, posição central. Não trata apenas de normas, de obrigações e tradições. Ao contrário, o foco é sobre emoções e valores, sobretudo no que tange o senso de justiça. A dimensão avaliativa (o que é tolerável) tem primazia sobre a dimensão normativa (o que deveria ser feito).

Os valores vinculam a todos, explorados e exploradores. O contexto moral consiste em um conjunto de expectativas e preferências nas relações entre pobres e ricos. Fica implícito que aqueles que corresponderem a tais expectativas serão tratados com respeito lealdade e reconhecimento social.

A economia moral permanece marcada por duas características. Em primeiro lugar, é historicamente situada, uma vez que concerne ao mundo anterior, das sociedades pré- mercado, agora sob pressão do mercado econômico. Em segundo lugar, é socialmente restrita, haja vista que se refere aos dominados, sejam camponeses ou trabalhadores. Portanto, a economia moral é uma ferramenta que possibilita pensar especificamente relações de diferença temporal e desigualdade social.

 

Verdades: a economia moral do conhecimento

Em uma nota de rodapé no começo de seu trabalho “A Economia Moral da Sociedade”, a historiadora Lorraine Datson define o termo “economia moral” como uma teia de valores de afeições saturadas que se destacam e funcionam em uma relação bem definida um com os outros.

 

 

A moral, ela argumenta, carrega seu significado dos séculos XVIII e XIX, uma vez que se refere simultaneamente ao psicológico e ao normativo. Já o termo economia também tem um lado mais antigo quando se refere a um sistema que exige certas regularidades explicáveis mas nem sempre previsíveis.

Para definir a economia moral, deve-se entender que ela não é um caminho para análise psicológica individual, e sim para uma análise do coletivo, ou seja, não parte de motivações de qualquer tipo, sejam religiosas, políticas, etc. O conceito não pode ser reduzido a ideologias que são normalmente utilizadas para representar valores e afetos. Em outras palavras, é historicamente criado, modificado e destruído, sendo influenciado pela cultura ao invés da natureza e, portanto, mutável e violável.

Daston divide a economia moral no trabalho em três categorias: quantificação, empirismo e objetividade. A quantificação corresponderia a quantos tipos de processos existiriam nesse ambiente. A autora argumenta que a economia moral encontra sua legitimidade na imparcialidade e na impessoalidade dos números e operações matemáticas e não nas palavras, ideias e teorias. Desse modo, faz a ciência uma prática distanciada da natureza, garantindo mais precisão.

Em relação ao empirismo, há a confiança na palavra do cientista que não consiga, por algum motivo, reproduzir seu experimento, de que o mesmo realmente aconteceu. A objetividade, elemento que guia a atividade científica, pode vir de várias formas. Como exemplo, pode ser baseada no fato de que evidências científicas ganham mais poder quando mobilizam a comunidade, cujo trabalho coletivo permite a objetivação dos fatos que um pesquisador isoladamente não foi capaz de verificar. A individualidade do cientista deveria desaparecer por trás do anonimato da ciência.

Esses conceitos estão relacionados com os valores mais amplos do mundo social. Porém, eles têm singularidade e autonomia. O estudo de Daston foi baseado na atividade de biomédicos e tinha como objetivo demonstrar as emoções e sentimentos desses, ao invés de mostrar somente o lado racional. A economia moral é utilizada, portanto, para demonstrar, por exemplo, o caráter emocional da morte cerebral em diversos países ou a criação de uma rede de cientistas global para defender a bioética e a pesquisa de células tronco.

A economia moral, vista pela ótica das ciências sociais, não tem a ver com a economia em seu sentido estrito de produção e circulação de riquezas. Ao invés disso, se relaciona no sentido da organização em regularidades e regras, se concentrando em categorias com alto capital cultural e conhecimento da modernidade.

Daston abre o conceito para uma possível teoria geral da economia moral, levando à perda da dimensão política do termo e de sua análise crítica social.

 

Aberturas: Em Direção a Antropologia da Economia Moral

Fassin coloca a questão se deveríamos dar mais ênfase ao termo economia ou ao termo moral dentro desse conceito de economia moral. Se for dada à economia, o qualificador seria alterado. Em relação à moral, haveria o retorno ao seu antigo significado. Misturando os dois conceitos, encontramos a igualação à ética de subsistência.

O autor evoca Gilles Deleuze e Felix Guatari ao afirmar que todo conceito tem uma história por trás que não é linear, mas sim situada em diferentes planos e, que no contexto de um modelo teórico particular, é possível dar uma coerência a um conjunto de problemas. Desse modo, devemos abandonar a ideia de simplificar o conceito de economia moral, unindo suas diferentes interpretações.

A economia moral seria, portanto, em seu conceito simples, a produção, distribuição, circulação e uso de sentimentos morais, emoções e valores, relacionados com as normas e obrigações no espaço social. Essa definição enfatiza mais o adjetivo do que o substantivo, sendo a moral o elemento de destaque. Também traz valores e normas, ou seja, junta os pontos de vista de historiadores sociais e científicos. Fassin destaca que normas e valores têm muito em comum, visto que são dependentes e um origina o outro. Além disso, argumenta que reações emocionais são conectadas com valores e normas, formando sentimentos morais que influenciam a economia moral, que se preocupa com a sociedade, consequentemente, com a circulação desses elementos. Isso permite que possamos analisar a economia moral de uma época da história ou de um determinado grupo ou segmento social.

Para exemplificar essa tese, o autor usa como exemplo os imigrantes chegados na França, no contexto da pós-segunda guerra mundial, que eram extremamente explorados em trabalhos braçais, não qualificados e expostos aos mais diversos riscos. Isso levava ao desenvolvimento de diversas doenças ligadas ao corpo desses imigrantes que, com a quantidade de casos, acabou sendo coberta pela seguridade social francesa. A significância desse caso é que, apesar de ocuparem uma posição marginal na economia política da sociedade, eles acharam uma posição central em sua economia moral.

Consequentemente, fica provado que a economia moral e a política conseguem convergir para uma análise histórica de sociedades. Com o fim da segunda guerra, os imigrantes se submetiam ao trabalho exploratório para conseguir estabelecer residência na França. Com o fechamento das fronteiras, eles continuaram a exercer atividades não qualificadas e a ser mal pagos. Por conta disso, a economia política evoluiu a partir de um sistema de exploração generalizada para uma exploração localizada. Porém, como o corpo era o objeto de trabalho, com o desenvolvimento de doenças a economia moral muda a situação de um regime de contraste para um de compaixão. Em outras palavras, possibilitou que os imigrantes tornassem seu corpo em um recurso social, deixando de ser somente sua ferramenta de trabalho, virando as atenções para sua saúde.

Nos anos 1990, a economia moral expandiu sua ação de local para global, se moldando de forma singular em cada lugar. Mobilizando emoções e valores, assim como normas e obrigações, ela determina o que pode ser considerado típico de um determinado momento (momento compassivo) na história ocidental contemporânea. Como exemplo, temos o desenvolvimento de organizações humanitárias, estudos sociais sobre pobreza e exclusão, maior atendimento de áreas carentes, etc. Ou seja, foram criados mecanismos facilitadores de reconhecimento de desigualdades sociais e marginalização. Por outro lado, a palavra-chave dos anos 2000 seria segurança, seja no contexto global ou local. Essa nova configuração condena visões que levem em conta valores, emoções e até mesmo a moral. Isso não exclui o que foi realizado nos anos 1990, mas muda o discurso para que aqueles que agem contra a regra não sejam contemplados pela defesa da economia moral.

É importante, então, caracterizar a sociedade e o pensamento em suas configurações morais históricas e analisar as questões políticas relacionadas. Essas definições não são restritas ao mundo ocidental e devem levar em conta a diversidade que o conceito de moral apresenta, além das diferentes conjunturas políticas. Por conta disso, é proposta uma etnografia da economia moral, cujo estudo e pesquisa enriqueceriam nosso entendimento do mundo social. Há o conflito entre a matéria em níveis globais e em níveis locais e esse deve ser estudado para a completa assimilação do conceito.

Na análise sobre revoltas urbanas (urban riots), um estudo sobre a noção moral dos manifestantes permite a compreensão dos mecanismos que levaram às ações violentas. No entanto, não deveríamos conhecer apenas o ponto de vista dos jovens marginalizados e seu sistema de normas e valores, além de suas emoções e sentimentos. Devemos levar em conta também o que é transmitido no treinamento de policiais, além do modo como julgamentos morais são construídos através do racismo e como o uso da violência leva a justificações de cunho moral.

As diferenças são ainda maiores quando comparamos, por exemplo, o mundo ocidental com o muçulmano. O estudo sobre a moral islâmica faz possível uma nova abordagem sobre as diversas emoções e valores, gerando um novo jeito de entender conflitos políticos e até atos violentos. No conflito Israel-Palestina, a sociedade israelita condena o terrorismo enquanto a palestina trabalha com a glorificação da guerra e o martírio. Apesar disso, jovens palestinos tidos como heróis de guerra sofriam com diversos problemas psicológicos, como ansiedade e insônia, e cidadãos israelenses começaram a entender que seus adversários também passavam por problemas similares aos seus. Houve, portanto, a humanização do inimigo, redefinindo a economia moral para além da guerra, provocando sentimentos morais compartilhados[4].

Enquanto a economia política oferece exclusivamente uma perspectiva externa que nos permite uma abordagem objetiva de situações, mas geralmente deslegitimando a experiência de seus agentes, a introdução da economia moral reestabelece o ponto de vista interno e reconhece a subjetividade política daqueles envolvidos. A análise de termos culturais muitas vezes tende a definir homogeneamente sistemas. As economias morais, por sua vez, são instáveis por lidarem com tensões e contradições, já que conflitos de emoções e valores se opõem e estão sujeitos a alterações circunstanciais. Devemos, portanto, sempre questionar a articulação de variados níveis de economias morais, sejam globais, nacionais ou locais. As questões geradas não podem ser separadas de uma análise antropológica e etnológica da situação, uma vez que devemos entender a economia moral como capaz de produzir novos entendimentos sobre o mundo, enfatizando problemas morais em conexão com conflitos, sua localização histórica e dimensão política.

 

Conclusão

 

Nos últimos 50 anos, o conceito de economia moral foi redescoberto e é usado de forma dúplice. Por um lado, foi empregado somente em termos acadêmicos, perdendo sua dimensão estritamente econômica. Por outro, foi privado de sua dimensão critica, já que não procurou mais explicar fatos políticos. O objetivo de Fassin com o texto seria enfatizar tantos os lados contraditórios quanto os pontos fortes do conceito, fazendo uma releitura contemporânea da história da ciência, ou seja, sua generalização além dos grupos subordinados e a consequente despolitização do termo.

É fundamental entendermos os contextos históricos para analisarmos a economia moral de grupos sociais específicos ou de uma determinada sociedade. Através das tensões e conflitos, é produzido o entendimento heterogêneo dos cidadãos em relação a emoções, valores e sentimentos e, em última instância, à moral. A economia moral, em última instância, sempre envolverá questões de ordem política.

 

 

[1] Esta comparação é nossa. Didier Fassin não faz menção à dignidade humana.

[2] Nota-se aqui a oposição mercado-capitalismo.

[3] Haveria, de maneira semelhante, sentimento de dignidade humana?

[4] Raízes da dignidade humana? Percepção de um sentimento de dignidade humana compartilhado, através do contraste com o outro?

 

 

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